Mito 1 – "A PHDA é inventada"
Existem publicações e estudos científicos sobre a PHDA desde 1902 e os seus mecanismos neurobiológicos são conhecidos desde os anos 50. A produção científica sobre esta perturbação tem comprovado que existem, associadas a este diagnóstico, alterações no funcionamento neurológico, atrasos de desenvolvimento neuropsicomotor, disfunções cognitivas, prejuízos no rendimento e sucesso profissional e académico, problemas de memória operacional, restrições severas na autoestima, traumas, quedas e hospitalizações, desagregação familiar, separação conjugal e maior risco de suícidio. Assim, o potencial intelectual e funcional torna-se muito mais reduzido e prejudicado. Toda a literatura, os sintomas, os casos de diagnóstico e os testemunhos reais permitem-nos afirmar que esta perturbação não só existe como é de extrema importância estarmos sensibilizados e atentos aos seus sinais de alerta.
Mito 2 – "PHDA e agitação são sinónimos"
Uma criança que é agitada ou hiperativa não implica que tenha, necessariamente, uma perturbação, podendo refletir apenas um perfil de personalidade ou condicionamento cultural. Embora a Perturbação de Hiperatividade e Défice de Atenção (PHDA) envolva sintomas como agitação e hiperatividade, estes não são suficientes para o diagnóstico. A agitação pode ser normal em certas idades, assim como a desatenção ou preguiça são comuns a todas as pessoas. No entanto, quando esses comportamentos estão associados a dificuldades de adaptação, esquecimentos frequentes, desorganização, baixa capacidade de aprender com os erros, desatenção excessiva, problemas de humor e aversão à frustração, pode-se considerar a PHDA ou outras condições neuropsiquiátricas.
Mito 3 – "A PHDA é resultado de má educação, falta de limites, perda de oportunidades, abandono afetivo ou lares desajustados"
A PHDA não resulta de uma sociedade agitada ou hiperestimulada, pois os primeiros relatos dessa perturbação datam de 1850, com o primeiro artigo publicado em 1902, muito antes da existência de televisões, computadores ou videojogos. O reconhecimento como perturbação ocorreu em 1980, evoluindo com informações mais precisas ao longo dos anos. O aumento de diagnósticos hoje reflete maior vigilância e conhecimento, e não necessariamente uma maior prevalência em relação ao passado. Estudos mostram que a incidência da PHDA é semelhante em todo o mundo, independentemente da cultura ou estatuto social.
Mito 4 – "Os sintomas da PHDA manifestam-se da mesma forma em todos os contextos quotidianos"
Os sintomas da PHDA podem variar conforme fatores internos e externos, o que pode dificultar o diagnóstico e tratamento, já que os sintomas podem parecer inconsistentes. Por isso, é essencial que a família, educadores e profissionais de saúde trabalhem de forma colaborativa para compreender a criança nos seus diferentes contextos e apoiar as suas necessidades de forma eficaz. Cada pessoa, com ou sem diagnóstico, tem motivações e comportamentos diferentes conforme o ambiente. Uma criança com PHDA pode, por exemplo, demonstrar mais sintomas na escola, que exige mais autocontrolo, do que em casa, onde se sente mais à vontade. Além disso, a atratividade da atividade desempenha um papel importante: a criança pode manter a concentração em atividades que considera interessantes, como jogos ou hobbies, mas ter dificuldades em tarefas que acha monótonas ou irrelevantes. Fatores ambientais, como ruído ou luz, também afetam os sintomas, e mudanças de rotina, como a troca de escola ou professor, podem intensificar a desatenção e impulsividade, já que as estratégias anteriores podem perder eficácia. Portanto, é crucial entender a pessoa de forma global, sem perder de vista os detalhes.
Mito 5 – "A normalidade em exames biológicos descarta a possibilidade de um diagnóstico de PHDA"
Apesar da imensa quantidade de estudos científicos que tentam encontrar explicações biológicas e genéticas e ainda outros que investigam fatores etiológicos com origem pré, peri e pós-natal, ainda assim, não há um consenso para esses marcadores. Esta perturbação é diagnosticada pela observação de comportamentos, cognição e rendimento em contexto social, afetivo ou académico. Deste modo, é possível sinalizar eventuais sintomas de desatenção, impulsividade e hiperatividade, conforme descrito nos critérios de diagnóstico do DSM-5, ou por outras escalas de avaliação confiáveis e indicadas cientificamente para o seu rastreamento. Portanto, a ausência de anomalias em exames físicos não exclui a presença da PHDA, que requer uma abordagem diagnóstica focada no comportamento e funcionamento cognitivo.
Mito 6 – "Todos os diagnósticos de PHDA estão acompanhados de prescrição de medicação"
O tratamento da PHDA é individualizado, envolvendo abordagens multidisciplinares como terapia cognitivo-comportamental, intervenções educacionais e apoio psicossocial, além de, em alguns casos, o uso de medicação. A escolha da abordagem deriva de questões como a gravidade dos sintomas, as preferências individuais ou familiares e indicações médicas. A medicação é utilizada em situações específicas e tem mostrado eficácia em melhorar a atenção e o desempenho, sem causar robotização ou dopagem. O tratamento deve ser ajustado ao longo do tempo, conforme o desenvolvimento da pessoa. Embora o uso de medicações tenha aumentado, isso reflete tanto uma maior compreensão da perturbação como o uso indevido sem prescrição médica, e não necessariamente influência da indústria farmacêutica.
Mito 7 – "O professor não se interessa pelo processo de diagnóstico"
Embora os professores não façam o diagnóstico de PHDA, desempenham um papel crucial na sinalização de comportamentos que podem indicar essa perturbação. Com o tempo que passam com as crianças, conseguem observar padrões consistentes de desatenção, impulsividade e hiperatividade que podem não ser visíveis em outros contextos. Ao compararem o comportamento de uma criança com o dos seus colegas, os professores podem identificar sinais de alerta, como dificuldades em completar tarefas ou seguir instruções, principalmente quando uma criança apresenta um comportamento diferente ou tem dificuldades que não são comuns para a sua idade. Além disso, colaboram com pais e profissionais de saúde, fornecendo informações valiosas para o diagnóstico e apoio adequado à criança.
Mito 8 – "A PHDA afeta apenas crianças"
A PHDA afeta crianças, adolescentes e adultos e, embora o diagnóstico seja frequentemente feito na infância, a perturbação persiste na vida adulta, podendo apresentar sintomas diferentes. A consciencialização crescente sobre a PHDA tem levado a diagnósticos mais frequentes, inclusive em adultos, após anos de dificuldades não identificadas, como desorganização, problemas de concentração e gestão de tempo, ou desafios nas relações interpessoais. Reconhecer a PHDA em adultos é fundamental, pois pode impactar negativamente a vida pessoal e profissional, sendo que o tratamento adequado pode melhorar significativamente a qualidade de vida.