A mentira é definida como a afirmação falsa, intencional e consciente de enganar. A atividade mental infantil é caracterizada pela riqueza da imaginação e pela fantasia, que leva a criança, muitas vezes, a fazer afirmações falsas e interpretações erradas da realidade. Por isso, as afirmações falsas feitas por uma criança pequena não são consideradas mentiras, uma vez que ela ainda não consegue distinguir a sua fantasia da realidade. Assim, ela acredita no que diz e pode afirmar como verdadeiros alguns factos que só acontecem na sua imaginação. Alguns educadores chamam estas afirmações de mentiras brancas, ou seja, uma afirmação falsa, resultante da confusão da fantasia com a realidade, feita sem a intenção de enganar o outro.
Os casos de mentira infantil, na maioria das vezes, são reações ao ambiente, ou seja, reações de defesa contra os possíveis castigos ou reações do outro. Muitas vezes, a criança nega o erro que cometeu por medo de castigos ou que lhe possam bater ou tirar uma determinada liberdade, como, por exemplo, que não possa ir ao aniversário que tinha no fim de semana. O medo é um grande provocador de mentiras.
A honestidade e a consequente desonestidade está, tendencialmente, mais ligada à situação ambiental da criança, do que propriamente a algum traço permanente de personalidade. Assim, famílias com uma prática educativa respeitosa, bem como professores mais seguros e que incentivam uma relação de confiança, tendem a ter crianças mais honestas. Com isto, podemos concluir que a interação é a chave para desbloquear comportamentos honestos ou desonestos.
Existem vários tipos de mentira, associados à sua intencionalidade e motivação. Vamos explorá-los!
Mentira Prazerosa ou Imaginativa
Este tipo de mentira caracteriza-se pela tendência da criança para narrar casos imaginários, procurando, assim, uma satisfação dos seus desejos ou uma chamada de atenção para ela. Nos factos que narra, a criança desempenha, habitualmente, o papel de herói e é como um conto de fadas que ela cria, sendo uma forma lúdica de escapar da realidade. Estas narrativas imaginativas podem ser adoráveis, mas também mostram o quanto a fantasia pode ser sedutora!
Mentira por Confusão
Este tipo de mentira resulta da incapacidade da criança relatar, com exatidão, detalhes de algum incidente. Neste caso, também, não se pode considerar mentira, quando praticada por uma criança, pois é algo parecido ao que acontece no jogo "O telefone estragado" – a mensagem é distorcida. A confusão pode surgir do medo, de não acreditarem nelas próprias ou da dificuldade de lembrar alguns dos detalhes da situação. Esta é, muitas vezes, resultado de pressões externas, como a forma como os adultos reagem a algo.
Mentira por Ódio ou Vingança
É um tipo de mentira que visa prejudicar outras pessoas, seja através de uma acusação injusta contra um colega ou uma mentira sobre um adulto da sua família. Quando uma criança mente por ódio, pode estar a expressar as suas frustrações e emoções reprimidas. Esta mentira pode ser o reflexo de alguma mágoa, estando a criança à procura de reconhecimento ou de uma forma de conseguir desabafar. É fundamental que os adultos estejam atentos a estes sinais.
Mentira por Desculpa ou Defesa
Este tipo resulta da covardia ou medo do castigo, sendo uma tentativa de escapar do mesmo. As mentiras por desculpa ou defesa podem ser agudas – tanto em casa como na escola, a criança mente, ocasionalmente, para não ter um castigo – ou crónicas – a criança vive, constantemente, na mentira, tanto na escola, quanto no ambiente familiar. A mentira crónica por desculpa ou defesa é um sinal de que a criança precisa de mais apoio e segurança.
Mentira Egoísta ou Calculada
Estes outros tipos de mentira são raros de ser observados em crianças, mas podem surgir em situações específicas. Aqui, a intenção é clara: enganar alguém para obter uma vantagem. Embora mais comuns entre os adultos, é importante reconhecer que as crianças também podem começar a aprender este tipo de comportamento. Um exemplo deste tipo de mentira seria mentir sobre ter feito os trabalhos de casa para poder ir ao parque depois da escola.
Mentira Leal ou Altruísta
É a mentira para ajudar ou proteger uma outra pessoa, como, por exemplo, a de um médico que oculta ao paciente, em estado grave, a sua situação real para evitar que este se assuste num período inicial. Entre adolescentes, há casos em que alguém assume a culpa de um ato para salvar o companheiro de uma situação difícil, mostrando lealdade e empatia. Estas mentiras revelam a capacidade de colocar os sentimentos dos outros à frente dos nossos próprios interesses.
Para além de uma parentalidade positiva, de uma adequação das punições e da construção de uma interação de confiança, é necessário, também, que os pais, cuidadores ou educadores sejam sempre verdadeiros para com as crianças. Elas descobrem desde cedo onde está a verdade e o comportamento por imitação aqui é perigoso, uma vez que conduz à mentira. Adicionalmente a tudo isto, a imaginação da criança deve ser respeitada e estimulada, mas é preciso um maior cuidado nestas idades para não dificultar a discriminação entre o real e o irreal.
A correção da mentira exige a orientação total da criança – correção dos complexos de inferioridade e consequentes reações medrosas e agressivas -, bem como uma adequação das punições ou castigos decorrentes de algum comportamento indesejado. Às vezes, para corrigir os episódios de mentira, basta a simples compreensão do adulto a duas questões: "Qual foi a motivação para esta mentira? O porquê?" e "Qual foi o objetivo desta mentira? Para quê?". A correção dos comportamentos de mentira depende mais dos adultos e do ambiente, do que da criança em si. Na grande maioria dos casos, deve-se evitar intervir diretamente na criança, pois, uma vez que as causas do desequilíbrio estejam terminadas, também estarão os efeitos que levam a criança à mentira.